Rala rala

branquela
quero       trégua
vamos sair desse
                  mela mela
afinal deste-me 
                  trela
não é justo ficarmos
apenas no rela rela

Desvir

Passar a passos mínimos
Sem abalar a superfície
E quando alguém já não me ver
E desconfiar se eu estive
Ou fui, é que sequer cheguei

Pais e filhos

Filhos não mudam
Desde que o mundo 
É mundo
Agem segundo
O que lhes manda
O impulso

No fundo somos
Mesmo
Os mesmos

No fundo somos
O que fomos

O grito

Tento alertar os padres
Que as torres ruiram
Ser amigo dos mansos
Abraçar o pé de vento
Pousar no Nepal
Tento gostar
Destes dias digitais
Sem pegadas, rastros, marcas
Tento a poesia
Embora medíocre
Insisto
Neste grito
Abafado, contido

Paraisos artificiais

A minha deusa é negra
Como as manhãs das noites não dormidas
Ela está nua e me convida para um beijo
E eu sei que este beijo será
Frio como a neve

Ela me convida a uma viagem sem volta
Pois seu beijo vai me entorpecer
E eu não vou querer deixar
Este paraiso congelante
Onde nos sentamos para observar
A explosão das super novas

Fora do lugar

Poemas em ponta de faca
Bússola equivocada
Rumo na jornada
Nada, nada, nada

Aperto o play
E nada, nada, nada
Tá quebrada
A vida tá quebrada
Mas dá para consertar

Anjos e guerras

Cansado de guerra
Embora empunhando a palavra
Em nova batalha

Não sei o sentido
(Talvez soubesse
Mas esqueci)

Se venci, não levei
Se levei, não percebi

No entanto lutei
Mesmo diante do sem sentido 
Da lida

Destroços, restos, pragas dos derrotados
Degolas, açoites, campanas durante a noite

E o espírito, sempre, entre os dentes

Fever

Doença
Delírio
Chá de lírio
Febre ferve a verve
Na selva do quarto
Do sonho tão louco
Espumo
Suo
Tusso
Os pulmões ardem
Os olhos idem
Eu queimo
E deliro

Sentimento torto

Olhar errado
De esgueio, de lado
Ao invés de direto, no meio

Pensar enviasado
Confundir o importante 
Não contentar-se com o bastante
Viver inconformado

Sentir um palpitar a cada instante
Nunca a paz
Que jamais
Brota num coração inconstante

Desbunde

Não uso gravata
Nem terno
Prefiro tênis
Sou meio desbocado
Para um cara da minha idade
"Que caralho"
Vivo repetindo
No meu espanto diário
As coisas,
Ah, as coisas
São tão fortes as coisas, caralho

Eu, super

Tento ser
Super bacana
Mas apenas sou
Super babaca
Na zona confortável
A serviço da irrelevante
Vida diária
(no inverno os dias curtos
e escuros
apertam as escaras
que pulsam)

Poesia em fuga

As palavras somem
E ficamos assim
Como um pneu furado

Fácil

Nítido e Lúcido, Lícito e Inútil, Fútil e Dócil. Ócio útil. Osso insosso.É isso, Wilson.

Nítido e lúcido
No território brasileiro
Observo em silêncio
A nação que não desafina
Dócil, não contesto
O gosto artístico
E o modismo dos conterrâneos
Embora ache péssimo
No que tudo se transformou
Cada reduto invadido
Cada refúgio tomado
Cada resistência tombada

Acho bárbara a multidão
Me dá medo
Meio destemperado
Vou desatinando
Desafiando
Mudo
Calado

Lição de história II

quem mente sabe que
está mentindo
quem ouve não sabe
(só é sábio quem cala)

do alto
toda palavra é santa
ou ordem
(o que, convenhamos, não causa espanto)

a verdade que se cria
e nos enfia
goela abaixo
de forma doce
engolindo
só o caroço

acham divertido
nossas almas 
sob as botas
nosso suor 
sobre a terra
nossa vida entre parênteses

companheiro
olha no espelho
a tua verdade
e vê
ou 
ouve

How deep is your love?

Eram duas e quinze
Acordei com você
Ao meu lado

Não entendi como entrou
Sentou na cama
E me olhava nua
Com frieza e diabrura

Virei para o lado
E num movimento de nuvens
Você não estava

Restitui-se o silêncio
O abandono
A solidão
Ao quarto


Lição de história

tem
a culpa deste estado
é de quem
tem
a culpa deste estado
é de quem?

Trem fantasma

Rasga a noite
Sem destino
Trem sem rumo
Clandestino

Trem noturno
Trem fantasma
Sem controle
Sem chegada

Corre pela
Madrugada
Sem destino
Sem chegada

No deserto
A jornada
No escuro
A emboscada

Nunca chega
No destino
Trem sem rumo
Clandestino

Noite adentro
A vida inteira
Esperança
É passageira

Sem saber
Onde vai dar
Rasga a noite
Secular

Trem sem rumo
Clandestino
Corre pela
Madrugada

Trem noturno
Trem fantasma
Sem destino
Sem escala

No deserto
A vida inteira
Esperança
É passageira

Uma história
Tão antiga
Nem se lembra
Da partida

Trem noturno
Trem fantasma
Sem destino
Sem chegada 

Bem vinda

D/F#                            Bm
quem bate na porta agora
G      D/F#           Em  A7
chegou em boa hora

D/F#                            Bm
há fomes e tempestades
G D/F#  Em                  A7
mas sempre seja esta tarde
          
                      Dm
em que chegastes
         D7                               Gm6
prá remendar os  nosso dias
A7                  Dm
prá nos lembrar
          D7                                   Gm6
que a vida veste a mesma arte
A7                 Dm
que ela inventa
         D7                      Gm6
as suas próprias danças
 A7               Dm
renova em ti
         D7                   Gm6
as nossas esperanças

A7               D7+
sejas bem vinda
                                     Em7+
às nossas mãos floridas
                     C7+                                    A7   
e algumas noites um tanto esfarrapadas

A7               D7+
segue conosco
                                     Em7+
durante a empreitada
                 C7+
aonde estamos
           G#7+        G7+

para onde vamos

Chico Migalha

ele é tipo
tanta gente
paga mico
diariamente

ele é chico
chico migalha
vez por outra
se atrapalha

tendo nada
tá contente
triste sina
de tanta gente

cara ordeiro
que não chia
paga mico
todo dia

chico migalha
engraçado
na desgraça
acha graça

brasileiro
o triste chico
todo dia
paga mico

chico migalha
odeia gente
canalha
e indecente

chico migalha
cara do bem
que assim seja

amem

Poesia no ar rarefeito

Ela me olha de lado
Eu me contorço para ve-la
Estamos presos a dez mil pés
Rumo à Sampa
Nunca nos vimos
Mas ela sorri
Deve ser seu hábito
Quem tem uma boca tão linda deve sorrir sempre
Fala de seu mundo de funcionário público
Certamente não sabe do heroísmo dos insetos
Força que move o planeta
Da chuva de meteoros que despenca em algum lugar para saudar sua beleza
Da solidão das baleias desgarradas

Lá fora a lua transforma as nuvens numa lagoa de prata
Lá embaixo alguém espera chegar a manhã para retomar a vida

Volto o rosto e ela dorme enquanto caio na real
Nunca mais nos veremos, é quase certo
Meu amor instantâneo rumo à Sampa
Não sou livre e tenho pouco tempo
Quem sabe em outro voo
Em outro século

Penso: o que faria se houvesse um aceno?
Poderíamos passar a noite
Debaixo desta lua imensa
Eu assopraria palavras na sua pele
Com meu hálito quente
Algo iria desmoronar
Para que algo, amedrontador, se erguesse
Talvez eu ficasse só
Com meu espelho quebrado
Findada a noite
Ela seguiria ao futuro
Eu com as lembranças
Que não seriam doces ou amenas
Fossem quais fossem
Mas doloridas e ácidas
Sim, cabelos longos, pele morena
Olhos negros
Talvez trinta
Ela, que o acaso colocou a dez mil pés
Ao meu lado
E eu, a seus pés

Diga-me o que lhe faz sofrer
Se não puder ajudar, ficarei triste também
Não faltam motivos. Perdemos sempre.
O tempo come todos seus filhos
Mesmo que sejam de pedra
E a cada lasca, a ampulheta esvazia um naco
A memória corta nas duas faces
Nos recorda o que já perdemos
E nos espera para o último beijo

Você é tão linda
Mas o mundo é duro
Ah se eu tivesse ao menos um dia
Sua atenção
Lhe mostraria
Por onde rondam os cometas
Lhe contaria o segredo do destino daquela estrela que batizei com seu nome
E ao chegar seu corpo quente junto ao meu corpo morno
Nossas peles trocariam calor e isso me acalmaria
E então poderíamos ficar em silêncio
Até que o fogo abrandasse
E eu lhe tomaria pelas mãos e descalços
Sentiríamos no calor dos passos a história milenar dos minerais

Talvez algo tenha lhe passado quando me viu
Será? Mas já não há caminhos ermos para lhe encontrar perdida e lhe ajudar
Não há magia que nos transporte além deste momento em que vivemos
Tão separados
Tão impossíveis